FLORAIS:ARQUÉTIPOS EM MOVIMENTO

 

 

FLORAIS: ARQUÉTIPOS EM MOVIMENTO

 

 

Artigo originalmente publicado no jornal Origanum de números 35 e 36.

 

 

 

 

RESUMO: A partir do estudo do simbolismo da erva Manjericão (Ocymumm basilicum) e da indicação terapêutica do floral Basilicum (produzido a partir das flores do manjericão) o autor procurou demonstrar como este floral atua sobre o psiquismo do indivíduo levando-o a cura. O modelo psíquico explicativo do funcionamento da mente utilizado neste estudo é a psicologia analítica de Carl G. Jung.

 

 

 

INTRODUÇÃO: A existência e evolução das plantas corresponde a um longo aprendizado de harmonia com as leis do universo. O ser humano também vive sob estas leis, e é por isto que o aprendizado das plantas é simbolicamente análogo ao dos homens. Quando a planta floresce todo o seu aprendizado fica disponível para o novo ser que irá se formar. As essências florais são, antes de tudo, a experiência da planta em busca de sua harmonia com as leis da natureza.

As lições aprendidas pela espécie humana durante os muitos milhares de anos de sua existência foram organizadas através dos arquétipos. São eles que organizam e fornecem os padrões que regem o funcionamento da mente. Portanto, os arquétipos são o substrato organizativo da mente, que subjaz a qualquer pensamento, sentimento, emoção, intuição, sensação e ação. Nós não podemos perceber os arquétipos propriamente ditos, mas sim os efeitos de sua atuação. Os símbolos são a forma mais comum dos arquétipos se "expressarem".

Neste trabalho iremos mostrar como os florais agem sobre a dinâmica arquetípica da mente. Para atingir este objetivo faremos uma análise dos símbolos popularmente relacionados à erva Manjericão (Ocymumm basilicum), de onde provém a essência floral Basilicum.

 

PERFIL: para aquelas personalidades comumente fortes e altruístas que assumem muitas responsabilidades. São consideradas confiáveis, responsáveis, seguras e confiantes. Devido às suas notórias capacidades tendem a tornarem-se líderes, comandantes e chefes.

 

O ERRO: estes indivíduos podem inflacionar seu Ego, identificando-se em demasia com os papéis sociais que assumem devido as características positivas de suas personalidades. Eles perdem a noção de seus limites interiores, pois sua atenção e motivação estão direcionadas à satisfação dos papéis sociais em detrimento da realização das necessidades do Eu Superior.

 

A CONSEQÜÊNCIA: estes indivíduos, momentaneamente e de repente, vivem a polaridade oposta de sua personalidade. Ou seja, sentem-se incapazes, inseguros e sem força para realizar as tarefas cotidianas. Esta situação psíquica momentânea pode provocar insônia, dores, nervosismo, confusão mental, etc.

 

A SOLUÇÃO: estes indivíduos tem que "recolocar os pés no chão" a fim de voltar a enxergar os problemas em suas devidas dimensões. Devem aprender que mais importante que corresponder às esperanças que os outros, e ele próprio, depositam em seus papéis sociais é necessário seguir os ditames de seu Eu superior. Ele deve aprender a dar e receber na medida certa.

 

O SIMBOLISMO DO FLORAL: o estudioso das essências florais Breno Marques da Silva que pesquisou o simbolismo do manjericão nos premia com uma extensa pesquisa sobre os usos simbólicos e curativos do manjericão no seu livro "Síntese para uma medicina de almas", pag. 250: "Na farmacopéia silvícola africana, o manjericão era empregado para eliminar as dores provenientes da picada do escorpião. O médico Pedanios Dioscórides usava a semente, bebida, como antidepressivo ... Plínio, o Historiador, fala do manjericão como uma planta estimulante do desejo sexual ... Tanto Plínio, como Dioscórides dizem que se as folhas desta planta forem piladas e colocadas debaixo de uma pedra, engendram um escorpião; e, ainda, se mascadas e depois postas ao sol produzem vermes. No tempo de Plínio, o manjericão era reputado como a causa de inúmeros males, razão pela qual ... evitavam a erva. Depois de Cristo, o estigma se inverteu e a planta se transformou numa panacéia médica. No século XVIII, um médico chamado Juan Holerio escreveu em sua Prática: " a maior virtude que tem a alfavaca é a de que se alguma mulher for atormentada no parto com veementíssimas dores, se puserem em sua mão a raiz inteira desta planta, então parirá prontamente, com pouca dor."... Desde a Antigüidade o manjericão é empregado no tratamento de melancolia e de fixação obsessiva. No México, as mulheres de certas regiões mascam as folhas para evitar a gravidez. Além de anticoncepcional, em altas doses é abortivo....

O nome basilicum vem do grego basilikon e quer dizer "real" ou "regia",... Supõem-se que a planta tenha sido usada para preparar um bálsamo ou um ungüento curativo para uso exclusivamente real. Todavia, muitos afirmam que este termo poderia ter vindo do latim bárbaro basilisco, nome do fabuloso réptil que matava com um simples olhar. Em Creta, o manjericão simbolizava "o amor lavado em lágrimas" e na Itália é usado até hoje como prova de amor. ... Nos rituais de terreiro, o manjericão tem extraordinário valor místico, tendo aplicação na confecção de ungüentos... Usam-no ainda nos banhos de purificação e descarrego e na preparação de líquidos para a tiragem de vumbi, nos casos de perdas de parentes. Na Índia, onde a planta é consagrada a Krishna e Vishnu, coloca-se um ramo no peito do morto para servir de passaporte para o paraíso. Na cabala, o perfume do manjericão está associado ao arcano IV, " O Imperador", que estimula qualidades de abundância, realização, afirmação, autoridade, confiança, controle, dever, liderança, poder moral ...razão, regeneração, triunfo e visão. "

Dentro do candomblé é uma das plantas que está relacionada a um número maior de divindades, como Oxalá, Iemanjá, Iansã, Xangô, entre outros.

 

A ATUAÇÃO ARQUETÍPICA DO FLORAL: A intuição popular vislumbrou na planta Manjericão símbolos que a relacionam com os aspectos positivos do perfil daqueles que necessitam do floral Basilicum. São símbolos de autoridade, força moral e capacidade de regeneração (fazer o novo renascer do velho). Na cabala esta planta está simbolicamente relacionada ao arcano do "Imperador", a origem grega do nome Basilicum significa "real" (realeza), ser dado como prova de amor e ser utilizado como passaporte para o paraíso demonstra a verdade e a força moral que esta erva revela para o ser humano. O bom uso do poder, da autoridade e da força moral propicia situações de justiça, de realização e de abundância, assim o Manjericão foi identificado como uma planta regeneradora e até como uma panacéia médica. O mal uso destas mesmas qualidades engendram situações de injustiça, miséria e morte, por isto esta planta também foi identificada como causa de doenças e capazes de se transformar em vermes e escorpiões.

O desequilíbrio tem origem quando o arquétipo do Herói infla o Ego, e o conduz a identificação com seus papéis sociais. A força deste arquétipo leva o indivíduo a transgredir seus limites humanos e a viver uma desorientação que é acompanhada por um enorme sentimento de poder e orgulho. É neste processo que os conceitos mais elevados de autoridade, força moral e capacidade de regeneração são deturpados.

Devido a desorientação interna, o indivíduo segue uma orientação externa ao seu Eu, pois encontra nesta orientação a oportunidade de exercer e satisfazer seu sentimento de poder e orgulho. Ele se torna dependente do poder que exerce e, portanto, se identifica em demasia com os seus papéis sociais. Dentro da psicologia Junguiana chamamos este processo de identificação com a Persona, pois esta corresponde às "máscaras" que utilizamos para nos adaptar socialmente. A conseqüência deste processo é que a "identificação com a Persona leva a uma forma de rigidez ou fragilidade psicológicas; o inconsciente tenderá, antes, a irromper com ímpeto na consciência, que emergir de forma controlável" (Dicionário Crítico de Análise Junguiana [D. C. A J.], pag. 147). É por este motivo que o sintoma patológico aparece "de repente" nestes pacientes. Este ímpeto do inconsciente ao irromper na consciência está expresso através de alguns símbolos, como o monstro basilisco (Dicionário de Símbolos [D. S.], pag.123): "monstro perigoso que matava com um simples olhar, ou com o bafo, quem dele se aproximasse sem o ter enxergado ou tendo sido visto primeiro por ele. É representado por um galo com cauda de dragão ou por uma serpente com asas de galo. Representaria o poder real que fulmina todos aqueles que lhe faltam com o respeito... Na alquimia simbolizou o fogo devastador que precede a transmutação dos metais... uma imagem do inconsciente, temível para aquele que ignora e dominando quem não o reconhece, ... até a morte da personalidade." Os símbolos do verme e do escorpião revelam o perigo, "a morte", e a "decomposição" em que se encontra a alma da pessoa, enquanto o Ego se infla com seus poderes e orgulho. Esta simbologia originária do inconsciente provoca no paciente os medos, desânimo e insegurança que ele vivencia.

Façamos agora uma breve reflexão. E. Bach nos ensinou que a doença e o sofrimento são sinais de que o paciente possui um aprendizado a realizar a fim de reconquistar a harmonia e o equilíbrio perdido. Para o ser que vive encantado com o poder e o orgulho, nada melhor que uma lição que o traga de volta aos elevados conceitos de serviço desinteressado e humilde. O psiquismo prepara esta lição ao deixar o Ego sem energia e inseguro para enfrentar suas responsabilidades rotineiras. Mas para onde vai a energia? A psicologia Junguiana e os símbolos novamente nos dão a dica. Observemos uma outra faceta do símbolo do verme: "A interpretação de Jung de que ... na evolução biológica verme marca a etapa primordial da dissolução ... em relação ao organizado superior, é a regressão ou fase inicial e larvária" (D. S., pag. 943). Este símbolo nos mostra que a energia voltou para o inconsciente e lá está gerando uma nova fase evolutiva. Os primeiros sinais desta fase são os sintomas patológicos educativos.

Dois processos concomitantes devem acontecer para que o aprendizado se realize: 1) o Ego tem que se desinflar (se desidentificar do arquétipo do Herói). 2) o Ego tem que se desidentificar da Persona. Estes dois aspectos estão simbolicamente representados no arcano do imperador e no uso da erva nos banhos de descarrego. O arcano do imperador "convida, no plano psicológico, a que se tome posse de si mesmo, ... o imperador afirma sua autoridade e se mostra pronto a defende-la" (D. S., pag. 502). Os banhos de descarrego tem uma função que é tirar da pessoa o que "não é seu" para que seu eu se afirme. Estes dois aspectos evidenciam a necessidade do Ego retomar sua autoridade. E para esta retomada é fundamental que o Ego abra mão dos sentimentos negativos que lhe traziam satisfação, como o orgulho e o poder.

Ao abrir mão desses sentimentos menos evoluídos o Ego se torna mais aberto para sua realidade interior. Desta forma o inconsciente pode lhe mostrar o caminho para a superação de suas dificuldades e para o aprendizado edificante. Para entendermos este processo devemos ter em mente que o inconsciente tem como uma de suas funções a compensação dos desequilíbrios da consciência. Assim, quando o Ego se "aliou" à Persona, a energia fluiu para o inconsciente e lá dinamizou o par oposto da Persona, que é a Ânima. É através do contato com os conteúdos da Ânima que o aprendizado vai realmente ocorrer. O autor Whitmont, pag. 168, fala da Ânima: "como padrão de comportamento, o arquétipo da ânima representa os elementos impulsivos relacionados à vida como vida, como um fenômeno natural, não premeditado, espontâneo, à vida dos instintos, à vida da carne, à vida da concretude, da Terra, da emotividade, dirigida para as pessoas e as coisas. É o impulso do envolvimento, a conexão instintiva com outras pessoas....". A Ânima está relacionada ao feminino. Simbolicamente este fato aparece nas inúmeras ligações do Manjericão com o mundo feminino, seja como anticoncepcional ou abortivo, seja como auxiliar no parto. O seu uso como prova de amor revela a relação da planta com o lado yin do ser humano, que mostra a valorização do sentir, da família, do corpo, etc.

O paciente que estava vivendo uma polaridade muito Yang da vida, reconstitui seu equilíbrio ao entrar em contato com o lado Yin. O racional é equilibrado com o intuitivo, a atitude intelectual com a atitude espontânea. A emoção, o vínculo afetivo e instintivo se tornam centrais nas relações sociais.

O paciente retorna a sua posição de líder, mas agora não mais como o líder que faz pelos outros e que recebe em troca a admiração. Ele se torna um líder positivo, que utiliza sua capacidade de aglutinação para atingir objetivos onde a comunidade ganhe e onde cada um dos liderados possa crescer. Ele volta a ter responsabilidades sociais, mas compreendendo seus limites espera ajuda, seja de seus liderados, seja da providência divina. O paciente volta a demonstrar capacidade e competência, mas por estar seguindo um chamado interior não se torna dependente de um reconhecimento externo. O seu vínculo com as pessoas e com as tarefas cotidianas se torna mais intuitivo, mais espontâneo e com mais sentimento. O Ego retoma a autoridade. Uma autoridade relativa que só existe porque este volta a seguir os ditames do seu inconsciente, ou se preferir, da sua alma ou do Eu Superior ou do Self.

 

CONCLUSÃO: 1) A energia das essências, ao conectar com os arquétipos do inconsciente, atuam positivamente sobre a mente conduzindo-a para a solução do conflito.

2) Quando, ao longo dos séculos, as pessoas mantinham contato com a erva Manjericão e interagiam com a energia da planta, intuições surgiram formando os símbolos que aqui analisamos. Cada símbolo que se formou se relaciona com o momento do conflito que as pessoas viviam interiormente. Ao analisarmos o conjunto destas intuições temos uma descrição do processo completo de adoecimento e cura destes pacientes. Ou melhor, observamos o movimento dos arquétipos "criando" a patologia, "gerando" o aprendizado e restituindo o equilíbrio. E aprendemos como o floral Basilicum atua neste processo de evolução do ser humano.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Chevalier, J. & Gheerbrant A. ; Dicionário dos Símbolos ; José Olympio Editora ; Rio de Janeiro, 1992.

Whitmont, E. C.; A Busca do Símbolo ; Editora Cultrix ; São Paulo, 1988.

Samuels, A ; Shorter, B. & Plaut, F. ; Dicionário Crítico de Análise Junguiana ; Imago; Rio de Janeiro, 1988.

Silva, B. M. & Marques, E. V.; As Essências Florais de Minas, Síntese para uma Medicina de Almas; Luz Azul Editorial ; Belo Horizonte, 1994.

 

 

 

Autor: Regis Soffiatti Mesquita de Oliveira.

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Fotos Basilicum:

 

 

 

 

(Fotos cedidas pelos Florais de Minas).

 

 

 

 

 

 


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